Lecce e sua Pedra Dourada: Uma Conexão Pessoal e Profissional

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Dando continuidade à nossa jornada pelo universo da pedra natural, hoje mergulhamos numa história que me é particularmente querida. A minha relação com a Pedra Leccese não começou em Lecce, mas sim em Verona, durante a Marmomac de 2010. Foi lá que me deparei com um projeto do designer Luca Nichetto que utilizava esta pedra de uma forma que me cativou instantaneamente. A sua cor quente e a sua aparente leveza deixaram uma marca duradoura. Desde então, alimentei a expectativa de um dia trabalhar com ela na TCC Whitestone, mas a oportunidade nunca surgiu.

Apesar de a oportunidade profissional nunca ter surgido, a curiosidade levou-me a ir à sua origem. Assim, em 2024, aproveitei uns dias de férias para visitar Lecce na região de Puglia e mergulhar na sua essência. Hospedado numa tradicional masseria da região de Puglia e a poucos quilómetros de Lecce, uma quinta fortificada típica da região, o meu segundo contacto com a pedra foi tátil e sensorial. As paredes espessas, que durante séculos protegeram os seus habitantes, respiravam história. A sua superfície porosa e quente sob o sol do Mediterrâneo foi o prelúdio perfeito para o que viria a descobrir no centro histórico de Lecce, a "Florença do Sul". Nessa mesma masseria esta pedra revestia casas de banho e dava vida a lavatórios esculpidos com um design cuidado e simples deixando a pedra ser protagonista. Este artigo é, portanto, um breve relato dessa jornada dupla: uma conexão pessoal com um material que me fascina e uma exploração profissional das suas infinitas possibilidades.
Agora em 2025 queria mesmo desafiar a equipa de design da TCC Whitestone a trabalhar com a Pedra Leccese, fomos visitar mais uma vez a Marmomac mas desta vez um dos pontos da visita seria encontrar essa pedra e mostrá-la à equipa. Então, a minha surpresa quando, ao visitar a mais recente edição da Marmomac procurei em vão por um expositor desta pedra magnífica. Eventualmente poderá ter-nos escapado. De qualquer forma, ou pela sua ausência ou por não termos de facto procurado bem, em vez de me desanimar, apenas reforçou o quão especial e oportuno poderá ser dar a oportunidade de a mesma continuar a escrever história.

Para compreender Lecce, é preciso primeiro sentir a sua pedra. O aclamado arquiteto Renzo Piano descreveu-a como tendo uma "luz interior", e é verdade. Ao pôr do sol, a cidade banha-se num brilho dourado que emana das suas fachadas. Esta rocha calcária, formada há milhões de anos no período Mioceno, tem uma composição única rica em argila, o que lhe confere uma trabalhabilidade excecional. Recém-extraída, é tão macia que ganhou o nome de pietra gentile ("pedra gentil"), podendo ser esculpida com ferramentas simples, quase como se fosse madeira. No entanto, o seu verdadeiro "milagre" acontece quando, exposta ao ar, endurece e cria uma pátina protetora que lhe garante durabilidade, preservando os mais finos detalhes por séculos. Foi esta fantástica característica que permitiu que o delicado património do Barroco Leccese chegasse intacto aos nossos dias.

A jornada da Pedra Leccese, da obscuridade do subsolo à luz das fachadas barrocas, é uma ode ao engenho e à resiliência humana. É uma história de diálogo com a terra, onde a mão do homem aprendeu a "ler" a pedra e a libertar as formas contidas no seu interior

A extração da Pedra Leccese ocorre em vastas pedreiras a céu aberto. Durante séculos, este foi um trabalho árduo e manual, onde gerações de cortadores de pedra destacavam os blocos com técnicas que exigiam força e precisão. A partir da década de 1950, a mecanização com máquinas de corte transformou o processo para responder a uma procura crescente, mas também levantou questões sobre a sustentabilidade.

Uma vez extraído, o bloco é entregue aos scalpellini, os mestres artesãos herdeiros da tradição que esculpiu os intrincados detalhes do Barroco Leccese. Hoje, a tecnologia complementa o ofício, com máquinas de controlo numérico (CNC) a realizar cortes precisos. No entanto, a pedra não permite um polimento espelhado como o mármore. Ao observar os detalhes nas ruas de Lecce, senti uma profunda admiração por essa simbiose entre a força da máquina e a alma da mão humana.

Passear pelo centro histórico de Lecce é como entrar num museu a céu aberto, onde cada edifício conta uma história de fé, poder e uma criatividade exuberante. Foi a fusão perfeita entre um material local único e um momento histórico de grande fervor que deu origem a um milagre artístico: o Barroco Leccese.
Segundo li em livros sobre Lecce que adquiri nessa viagem o ponto de viragem crucial foi a Batalha de Lepanto em 1571. A vitória da liga cristã sobre o Império Otomano trouxe um novo sentimento de segurança à Península Salentina, que durante séculos viveu sob a ameaça constante de incursões turcas. Libertos deste medo, as cidades sentiram um impulso de reconstrução, um desejo de expressar a sua fé e prosperidade através da magnificência arquitetónica. Foi neste clima que os artistas locais, a partir do século XVII, encontraram na Pedra Leccese o meio perfeito para dar asas à imaginação.

Longe de ser um material relegado ao passado, a Pedra Leccese continua a inspirar. Hoje, a pedra é usada em revestimentos de fachadas modernas e interiores, onde a sua textura e calor criam diálogos entre o antigo e o novo. O projeto do Salento Biomedical District, num antigo convento, é um exemplo perfeito, onde elementos contemporâneos, como um balcão de receção metálico, contrastam e realçam a beleza da pedra original. A reinvenção da Pedra Leccese entra também com força no mundo do design de produto. Ainda existem algumas empresas a colaborar com designers para criar candeeiros, mesas e vasos esculpidos, levando a beleza da pedra para o quotidiano e nós pretendemos ser parte deste movimento.
Artistas como Renzo Buttazzo elevaram a escultura em Pedra Leccese a um patamar internacional, criando peças para marcas de luxo como Armani e Louis Vuitton, democratizando o acesso à beleza de um "fragmento do Salento".

A minha viagem a Lecce foi uma redescoberta do poder dos materiais autênticos. Num mundo cada vez mais dominado por superfícies sintéticas e perfeitas, a Pedra Leccese é um lembrete da beleza da imperfeição, da pátina que o tempo confere e das histórias que um material pode contar. Cada veio, cada fóssil incrustado, cada marca do cinzel do artesão é uma expressão visível da sua história, uma conexão tangível com a terra e com a cultura que a moldou.
Esta experiência reforçou a minha convicção, enquanto profissional da TCC Whitestone, de que o nosso trabalho vai além de fornecer pedra; trata-se de oferecer fragmentos de história, de conectar pessoas e espaços à autenticidade da natureza.
A Pedra Leccese, com a sua dualidade entre a gentileza e a força, a sua herança barroca e o seu futuro inovador, é a personificação desta filosofia. Ela não é apenas a matéria-prima de Lecce; é a sua essência, a sua alma. A "pedra de luz" do Salento não apenas ilumina o seu passado glorioso, mas continua a brilhar, com uma intensidade renovada, em direção ao futuro do design e da arquitetura.
Sergio Costa, 2025